Barrancos, terra raiana
Barrancos, Beja, 29 Ago (Lusa) - Sem a pressão dos anos de polémica e com as lides de morte legalizadas desde 2002, Barrancos vive hoje a primeira tourada desta edição das festas, com os habitantes a garantirem que "já cheira a touro" na vila.
"Já cheira a touro e a tourada", afiança à agência Lusa Maria Pica, barranquenha residente fora do concelho situado na raia alentejana (Beja) com a região espanhola da Andaluzia, que anualmente regressa para as festas de Agosto.
Com a primeira corrida com touros de morte deste ano marcada para as 18:00, como é habitual, Maria Pica, de 40 anos, "fervilha" de antecipação.
"Vamos para o 'tabuado' [bancadas da improvisada praça de touros] às 16:00, porque a praça começa a encher e gostamos de ir cedo para ver tudo o que faz parte da festa", explica, garantindo que, para perceber a importância das touradas na vila, "só vindo a Barrancos e vivendo as festas".
Naquela que é a oitava edição das festas de Agosto com as lides de morte legalizadas, depois da entrada em vigor do regime de excepção criado para Barrancos, em 2002, a vila já não recebe as enchentes de outros tempos.
Quando as touradas de Barrancos estiveram envolvidas em polémica, com os protestos das associações de defesa dos animais a soarem bem alto, de 1998 até 2002, Barrancos, terra com cerca de dois mil habitantes, chegou a receber 20 mil visitantes, nos quatro dias das festividades.
"Nesses anos, quase não tínhamos vagar para estar com os amigos. Havia tanta gente... Faltava-nos essa parte boa, que é estarmos com quem não vemos durante o ano", relata Maria Pica, satisfeita por, agora, o ambiente ser mais "caseiro".
A mesma opinião é partilhada pela sua amiga, Maria João Isqueiro, de 38 anos, natural do vizinho concelho de Moura e residente em Évora, que guardou estes últimos dias de Agosto para, como faz "há 22 anos", rumar a Barrancos.
"Estas festas são diferentes das outras. Aqui, há touros de morte", explica, frisando que, agora, "sem tantos forasteiros", os festejos "voltaram a ser dos barranquenhos e dos seus amigos".
Mas, apesar das menores enchentes, as touradas de Barrancos, que decorrem também sábado e domingo, continuam a ter "praça cheia", salienta o presidente do município, António Tereno, apostado em atrair mais visitantes à vila.
Na quinta-feira, o primeiro dia das festas, em que decorreram as celebrações em honra de Nossa Senhora da Conceição e a música se fez ouvir quase até ao raiar do Sol, "já houve uma afluência muito grande", segundo o autarca.
"Com o início das touradas e como se aproxima o fim-de-semana, espero muito mais gente. Queremos conquistar cada vez mais pessoas de fora, dando-lhes melhores condições de acolhimento", diz Tereno, que este ano até contratou uma equipa médica para as festas, para garantir cuidados de saúde em permanência.
Nas festas, marcadas por uma tradição que os locais dizem não ser "nem espanhola, nem portuguesa", mas apenas "dos barranquenhos", o "cachondeo" (divertimento) também nunca falta.
Além das touradas, todos se entretêm com as actuações musicais, os bailes e os petiscos, nos quais deverá marcar presença, a partir de sábado, a carne de touro com tomate, depois dos primeiros dois animais mortos e das respectivas autorizações sanitárias.
"O baile durou até às tantas. Só fui a casa dormir uma hora, tomar duche e às 08:00 já estava no 'encerro'", conta o autarca, ainda assim "batido" por Maria João e Maria Pica, que foram um pouco mais resistentes.
Do baile, seguiram directamente para o "encerro", em que os touros são conduzidos, pelas ruas, até entrarem na praça e acederem aos curros.
"Quando temos vagar, 'acostamos' (deitamo-nos) um bocadinho, mas esta noite nem isso! Com 40 anos, as forças para esta 'movida' (animação) já vão fraquejando, mas normalmente dão para três dias seguidos", afiança Maria Pica, com sotaque barranquenho, corroborada por Maria João: "É dançar a noite inteira".
Já uma outra amiga, Ana Pinto, de 32 anos, bombeira em Barrancos, também mais adepta das festas actuais, "sem tanta confusão", confessa ter perdido hoje o primeiro "encerro" da sua vida.
"Fui a casa trocar de roupa e fiquei a meio do caminho. Só eu sei como estou arrependida de me ter deixado dormir", lamenta, elogiando o ambiente das festas: "São quatro dias em que o pessoal está todo animado e em que não há noite, nem há dia. Perde-se a noção do tempo".