
Ela, sem tempo de cá vir e escrever o que a cabeça dita e as mãos por vezes não conseguem transmitir. Há momentos assim, em que o silêncio sabe bem, nos aconchega e sossega. Aqueles momentos que nos resta ao fim do dia com a casa vazia, longe do bulício da grande cidade, protegidos do grande calor que se tem feito sentir nestes últimos dias e podemos finalmente pensar! Pensar em mil e uma coisa! No tudo e no nada. No bom e no mau. No que fizemos ou não fizemos e no que poderíamos ter feito e não fizemos. Hora de balanço emocional! Invade uma sensação de alivio e culpa. Sente-se a ausência de quem já estávamos habituados a tratar e a vigiar. O quarto vazio, a cama desfeita, a janela aberta.
Ela aguarda notícias do tratamento a que Ele será submetido, radioterapia à cabeça possivelmente, dizem, depois de fazer um TAC saberão o caminho a seguir. Está demasiado debilitado, demasiado cansado.
Depois da frase "final de linha", Ela lutou com quantas forças tinha para que alguém se interessasse por Ele, recusou aceitar o que "todos" diziam ser o caminho certo a seguir, ficar em casa à espera do fim! Falou com meio mundo, pediu ao outro meio, passou horas nas urgências, chamou os bombeiros, o INEM em momentos de grande aflição e finalmente alguém a ouviu e o internamento fez-se de um momento para o outro, sem que antes mil e um problema não lhes fossem levantados. Principalmente a falta de transporte para o Hospital de Santa Maria! Carro particular estava fora de questão, devido ao estado em que Ele se encontra e a ambulância do Bombarral pediu 85€ para o transportar, mesmo sendo sócios. Teve de ser o Hospital e o incansável Dr. Renato do serviço de pneumologia a quem estão eternamente agradecidos, a facultar esse serviço, mas mesmo assim não chegou, teve de ser o Centro de Saúde do Bombarral a passar um termo de responsabilidade para o efeito. Se assim não fosse, o doente tinha de ir para o Hospital da sua área de residência, neste caso o Hospital das Caldas da Rainha, dar entrada, ser internado e depois de fazer exames seguir finalmente para Lisboa. Passaram-se hora de aflição, de algum stress. Tinham de estar no H. Santa Maria às 3 horas da tarde já passava das 13H e nada feito. Tiveram de ir buscar o "papel burocrático" em mão e entrega-lo aos Bombeiros e só depois o doente foi finalmente levado para a cama que o esperava numa enfermaria do piso 9 do Hospital de Santa Maria, onde era esperado pela equipa médica e de enfermagem. Aqui tudo perfeito, profissional e humanamente. Ele, indiferente a tudo, o pensamento e a palavra num outro lugar. Ausente, distante, sorri e vai dizendo que está menos mal!!
Cada etapa desta doença, está a deixá-los desesperados com a falta de humanidade e de solidariedade, mesmo em momentos "destes", em que a vida conta a cada segundo é mais importante um papel do que a vida humana.